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sábado, 26 de março de 2011

PORTUGAL, Alexandre O'Neill - Bruno Pestana



PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill
1924-1986

Poesias Completas
Alexandre O'Neill
Assírio & Alvim

sábado, 29 de janeiro de 2011

NOITE DE NATAL 2007, de António Cardoso Ferreira

Nasceu
pela estreita fenda
aberta no fundo mais escuro
dessa noite

Olhou
os vultos indecisos
das montanhas e das casas
envoltas em lençóis imensos
de neblina e mágoa
nessa noite

E foi de súbito que viu
o brilho de um clarão
abrindo os braços
e um jorro de luz
iluminando os passos
dos que buscavam rumo
nessa noite

Pouco importa
se eram pastores ou reis
os que então partiram
para o sonho

A estrela está dentro de nós
escondida
Faz falta descobri-la
acendê-la
e fazê-la brilhar por toda a vida


António Cardoso Ferreira

Publicado no Jornal "Notícias de Gouveia"

sábado, 15 de janeiro de 2011

TU és meu fogo,

TU és meu fogo,
Minha chama, meu lume
És minha onda, meu Mar,
Minha sorte, meu ciúme
És o reflexo do meu luar
És vinho novo, vinho mosto
És meu mote, meu verso
És tudo aquilo de que gosto
O meu espelho e seu inverso
És meu riso e meu pranto
Meu acervo, meu tesouro
Meu ardor, meu encanto
És minha canção, melodia
Minha pele, meu vestir
És o Sol do meio dia
A razão do meu sentir
És a rosa no meu punho
Minha coragem e meu medo
És o meu mês de Junho
Eu?
Eu sou …o teu segredo.

Rosebud

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Abandono?

Abandono?
Nunca!
Abandono não!
Não sou dono
Desse abandono
Meu Amor!

Abandono?
Gosto do Teu…
Quando no leito
Lânguida, estendida,
Parecendo até mais comprida,
Te abandonas às minhas carícias
Me procuras, nua…

Me Abraças
E enlaças
Beijando-me
No meu ventre…
Á maneira Tua
Deixando-me, de desejo,
Louco
Preparando-nos
Para que em Ti entre
Aquilo que beijavas há pouco

Abandono?
Desse gosto
Esse amo
Esse quero
O abandono do Teu corpo
Que è dono do Corpo Meu

Por isso,
Meu Amor acredita,
Que tenho em meu corpo gravado
Teu corpo sobre o meu… abandonado!

Rosebud

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Vestir outra vida

Vestir outra vida
É despir-se da vida
Que se trazia, antes, vestida?

È partir do nada
Ou do já perdido
E vestir novo vestido?

È nada vestir
Ou Tudo despir?

Ou vestir de novo
Um novo Vestir?

È vestir algo de que se goste
Ou despir o que se tinha posto
E vestir-se de bom gosto

Vestir outra vida
È desistir?
Ou… insistir?

E tu que de Palavras te vestes
Mas que te despes com pudor
Vais fazer o que disseste
Por Raiva, ou por Amor?


E se aquilo que disseste
Foi aquilo que sentias
Não há veste que te reste
Pr’a vestir todos os dias.

Veste-te antes de Vestal
De vestido feito de linho
Teu vestir, no final
Será um outro…caminho!

Rosebud

A Nêspera

Uma nêspera
estava na cama
deitada
...muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário Henrique Leiria,

in Novos Contos do Gin

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Receita para resfriado

Limão quem me dera ser
P'ra mergulhar em teu chá
Água quente, bem a ferver
CUIDADO NÃO BEBAS JÁ!!

Deixa que o mel se misture
Nesta água d'infusão
Deixa-me que te procure,
Segurando tua mão,
Um outro remédio que dure,
Para além da rouquidão

De ternura, duas pitadas
De carinho uma colher
Duas lágrimas bem salgadas
Agitar antes de beber

Se isto ainda for pouco
P’rás melhoras que desejo
Recebe este amor louco
Recebe, de mim, este beijo!

Rosebud

domingo, 2 de janeiro de 2011

"Você gosta de mim?"

"Você gosta de mim?"
Amor, porque perguntas
Se sabes a resposta?
Porque perguntas assim,
Bem sabendo o quanto,
O modo
Como de Ti gosto?

Bem sabendo o tanto
Que Te amo,
Te quero,
Te desejo?

Então se sabes,
Perguntas, porque gostas
Que minha resposta
Saiba ao beijo
Que Te quero e não posso dar
Que queres mas não podes receber
A não ser…
Que este verso que escrevi
E que lês neste instante
Mostre…como gosto de Ti

 Gosto dos teus olhos
E ainda mais do Teu olhar
E gosto demais, preciso
Minha Querida, de Teu sorriso

E como gosto de Tua boca
Mesmo antes de a sentir
Gosto de Teus seios
Minhas rolas, meu altar
Como gosto de os beijar…

 E gosto de Teu ventre
Meu ventre nele poisar
E como amo, quando me amas
De sentir Teu ventre…em chamas!

E se houvesse mais gostar
 Se isso possível fosse
Gostava de perguntar
De forma terna, quão doce
Embora sabendo que sim:
Meu Amor…?
Gostas de mim?”

Rosebud

sábado, 1 de janeiro de 2011

Mão de Mulher

Há mãos para tudo e mãos para nada
Há mãos de Homem e de Mulher
Mas a mão masculina,
Não é p’ra aqui chamada!

Mão da Mulher é a Mão de Mãe
Mão firme, carinhosa
Mão doce, feminina
E mesmo na Mãe idosa
Mão de Mãe é Mão de menina.

Mão de mulher é Mão de namoro
Mão de ternura, Mão de desejo
Entre a luxúria e o decoro
É Mão do medo do primeiro beijo

Mão de mulher é mão de Amor
Mão da carícia, sexo na Mão
Esquerda ou direita, a Mão que for
Mão de Mulher é Mãe da paixão

Depois há a Mão companheira, amiga
Mão solidária, sempre presente
A Mão que cumprimenta, na forma antiga
Mão que a Mão do outro sente

Por último, a mão sabida, gostosa
Mão massagem, terapia de certeza
Mão suave, muito cremosa
Levito em tua Mão, Maria Teresa.

Rosebud

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Massagem

Pedes para me virar de costas,
E Tu és a amazona, eu o teu corcel
Começas, como gostas
Delicada, debaixo do pescoço
Tuas mãos, pequeninas,
Reduzem minha idade, sou moço
São duas meninas
Que passeiam em cima de mim
E com uma força inusitada
Percorrem meus ombros, assim:

Desfaço os nós, os novelos
Da tensão”
Com voz, doce, mimada
Sussurras, em meu ouvido,
Por momentos, deitada
Sobre o corcel… derretido

E continuas, mais abaixo
Sem medo, com tal coragem
Que eu acho
Que é um anjo que faz massagem

Somos, então, um ser alado
Tu as asas eu o corpo
Até que me viro, mas sempre deitado
Sinto o desejo, há pouco morto
Voltar, de novo, ali:
Obrigando-me a pedir.
Deixa-me entrar em TI!!!!

Rosebud

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Saber ler nas fotos


Saber ler nas fotos
A alma dos fotografados
É próprio de Deus, dos seus devotos
Ou,
Dos que Nele não acreditam, ´
Mas, pelo menos meditam
No significante e seus significados

É refazer o tempo, e regressar
Ás circunstâncias, ou lugares
Conhecidos ou não
Interpretando rostos, olhares
Posturas, sorrisos, esgares,
Fomas de vestir e trajar,
O imperceptivel gesto
E tudo o resto…
Que às vezes nos faz ouvir,
Os sons que o silêncio da foto
Não deixa de revelar.

Outras vezes até parece
Que a foto que foi tirada
Não é só p'ra quem se conhece
Mas sim p'ra ficar gravada,
A tal postura e expressão
Que um dia há-de ser vista
Por quem não se conhecia, então.

E que nessa foto descobre
Por encanto e por magia
O que há de mais puro e nobre
Na alma da fotografia.

Rosebude
Legenda:Na da esquerda os meus Pais no 1º ano de casados (1950) na 2ª, eu, sentado em cima, aponto “um caminho qualquer” ao meu Irmão - As minhas irmãs, gémeas, sentam-se em baixo. Os outros dois, tb irmãos, são amigos de infância…..

A Leitura só é leitura...

A Leitura só é leitura
Se for,
Daquela que nos fascina,
Que é deleite e não tortura,
Que nos faz voar,
Que nos mima,
Que nos dá um certo olhar,
Que não tem dia, mês ou ano,
Que nos incita a viajar
Que nos liberta do quotidiano
Que nos ensina a amar,
O Livro…
Como um Ser Vivo!
Que é o melhor remédio,
Que é forma, mensagem, conteúdo,
Que nos liberta do tédio,
E,
O melhor de Tudo,
É ler o que nos desafia
É LER …POESIA!!!!

Rosebud

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Soneto erótico - marítimo

Quero, Amor, meu leme em  tuas águas
Navegar teu corpo, á vela nos teus Beijos
Quero afogar as tuas e minhas mágoas
Beber o Mar em tua boca, saciar nossos desejos

Quero-te como a ninguém, quero-te tanto
Ser teu bote, tua nau, a Caravela
A que cruza este mar, o meu encanto,
Te erguendo em meu mastro, Sereia bela

Quero amar-te assim também em Terra
Firme, sob o manto do Firmamento
Dentro de ti minha âncora bem no fundo,

Quero todo sal que o mar encerra
As ondas do teu corpo e aquele momento
Em que nosso êxtase é maior do qu'este Mundo


Rosebud